De repente, numa noite em que a solidão é densa e fantasmagórica, parece que a tristeza entra no peito de uma maneira abissal. Lá, num apartamento muito distante de você, há um corpo esparramado pelo sofá. Semi nu, pesado, cansado, triste, devorado por pensamentos sem nexo ou ética nenhuma. Ele apenas está lá, quase que inerte, quase que gelado, sentindo o sangue pulsar lentamente, com o corpo em carne viva e a alma dilacerada.
Seu rosto está pálido e suas mãos frias, brancas, paradas. É triste vê-lo, porque não se sente calor, não se expressa sentimentos, apenas ele está lá, vertendo lágrimas por dentro. Lágrimas tão tristes quanto as caras e bocas depressivas e depreciativas. Tudo pra ele não presta e a vida é tão triste quanto um cálice de lágrimas. Sim, um cálice cheio de lágrimas choradas por saber-se e sentir-se inútil.
A necessidade de verter lágrimas como se essas limpassem os olhos, a alma e os problemas é algo tão infantil, tão débil, tão insosso, que chega a parecer tédio de viver. Parece que sorrir é bobagem, ou que ainda não chegou a sua vez. Mas, ele está lá, esperando, aguardando e sonhando com a vez dele, para sorrir sem culpa, sem pecado, sem medo do tédio, do absurdo e do cotidiano.
Outra coisa que o amedronta é o cotidiano, o todo dia que todo dia começa e termina. A tristeza cíclica fica tatuada em seus olhares tristes, que exploram a sala, ali, daquele sofá, em que ele está esparramado. Sente-se fraco, quase que morrendo, se encolhe e volta a ser feto, pede pela mãe, espera proteção, evoca sanidade e chora…
Há quem pensa que ele é fraco, burro, inútil, débil, quase que sem salvação e ele concorda. Em seu ohar está escrito: “Será que existe alguém mais ignorante e fraco que eu?!” Mas, ser ignorante é ser feliz, pois não se tem problemas se não sabe pensar e fraqueza não é bem sua palavra. Tudo se silencia.
E o espelho só acha que eu desaprendi a sorrir…