Carta aos governantes e à sociedade

Gostaria, em um primeiro momento, de transmitir os meus sentimentos à família de Alexandre Ivo, um menino de 14 anos que foi barbaramente assassinado em São Gonçalo (RJ). Foi um momento muito triste, para mim, saber que um menino foi brutalmente assassinado e que pode ser intolerância e preconceito a causa deste crime. São ações como essa que me chocam quando às pessoas que convivem comigo me dizem que os homossexuais têm “síndrome de perseguição” e acham que todo mundo é preconceituoso.

Ainda não foi investigado o crime, e até o momento da redação desta carta, pouco foi dito sobre esse ato. Já ouvi alguns comentários e recebi notas e textos de revolta do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais,Travestis e Transexuais), que pedem a criminalização da homofobia, por meio da PLC 122/2006, que está emperrada nos trâmites do governo brasileiro, entre bancadas religiosas e políticas.

Aos que acreditam na “lei divina” de que duas pessoas do mesmo sexo não devem ficar juntas, ou se amarem (como eu vejo), gostaria que percebessem que vocês estão com as mãos sujas de sangue. De sangue de crianças, como esse menino; de pessoas que quiseram viver felizes ou da melhor maneira possível. A cumplicidade é crime e acredito que muitos outros deviam se envergonhar do preconceito que têm.

Há algum tempo, li uma opinião de um dos chamados “representantes do povo”, que agora não me recordo (e nem pretendo) o nome, mas que foi publicada na Folha de S. Paulo. E ele dizia sobre uma ditadura homossexual. E que nós queremos que os heterossexuais nos aceitem de qualquer forma e que logo estaríamos ferindo preceitos como à liberdade de expressão. Gostaria de saber se ele tem como garantir o direito de ir e vir a tantos homossexuais e transexuais que vivem em nossa sociedade.

É muito bonito falar que segue as normas de sua religião. Se você está de acordo com a sua crença, parabéns! Muita felicidade pra você. Mas, sinceramente, o direito de me expressar é do tamanho do seu. E a minha contribuição de impostos e meus deveres cívicos são também. Se os cristãos, budistas, islâmicos ou qualquer outra religião gastarem o mesmo de energia que gasto, pagarão o mesmo que eu, que sou homossexual.

E se caso cometam um delito, devem responder à Justiça como eu deveria. Então, porque eles podem bloquear um direito que eles têm? Gostaria de pedir ao leitor desta carta, que fizesse uma reflexão, não importando que orientações ou posições políticas e religiosas você tenha. Alguém já teve alguma notícia de um grupo de homossexuais que atacou ou violentou um heterossexual? Ou já ouviu em algum lugar, que um heterossexual foi ofendido na rua por um homossexual, só porque passava? Então, por que alguém teria direito de fazê-lo?

É ridículo pensar que temos que ter medo de sair de nossas casas, de viver nossas vidas, de ir a festas e amar pessoas, porque somos diferentes. Diferentes em quê? Gostaria de saber, quem deu direito à alguém de julgar as atitudes de uma pessoa pela orientação sexual dela. Somos homossexuais e estamos todos os dias nas ruas, nas escolas, nas universidades, nas igrejas (porque acreditamos em religião), no trabalho e vivemos pagando pelas coisas que temos e recebendo pelos serviços que prestamos a sociedade como profissionais, como todos os brasileiros.

Ofender é direito de quem? Menosprezar, julgar, bater, agredir, matar é direito de quem? A Justiça brasileira não reserva a ninguém esse direito. Cada um de nós deve cumprir sua função na sociedade e colaborar para que as pessoas possam viver da melhor maneira possível. As nossas vidas já são tão complexas e precisamos tanto nos esforçar para conseguirmos algo, para que alguém precisa piorar os desafios dos outros?

A questão da PLC 122/2006 não é uma supremacia gay. Assim como a Lei Afonso Arinos que protege contra crimes de racismo e a Lei Maria da Penha, contra agressões domésticas, uma lei de proteção aos homossexuais e transexuais protege-nos das barbáries feitas por pessoas que deveriam se preocupar com suas vidas, e não com as nossas.

A pergunta já foi feita tantas vezes. Quantos homossexuais terão que morrer para a aprovação dessa lei? Quantos transexuais terão que sofrer sem respaldo da sociedade e pagar o mesmo preço? Se a sociedade é capitalista ou comunista, se você acredita em milagres ou torce para determinado time, o problema é seu. Mas, ninguém tem o direito de ofendê-lo ou agredi-lo por isso. Não é isso que reza nossa Constituição? E agora, quantas crianças e adolescentes terão que morrer?

O país é para todos e enquanto a sociedade não compreender que crianças, jovens, mulheres, homens, pais, filhos, mães, tios, tias, avós e trabalhadores morrem todos os anos por uma barbaridade chamada aversão, nada pode mudar. A educação, a cultura, a economia, a política depende de indivíduos que saibam se preocupar com o bem-estar da sociedade e garantir que o seu direito também é o do outro.

Não é admissível que alguém acredite que uma pessoa mereça morrer. Que um menino, de 14 anos, mereça morrer por intolerância. Não existe coisa mais ridícula do que isso. E não é um julgamento de uma pessoa. É a realidade. A ninguém é reservado o direito de dizer quem está certo e quem está errado. A Justiça segue provas e a religião normas. Entretanto, se eu não ofendo o outro e não o agrido, mereço eu, ou pela Justiça ou pela Igreja (seja ela qual for) ser condenado? Não acredito que uma divindade seja capaz de achar bonito o assassinato frio de um menino. E, sinceramente, é incrível ver que a sociedade ainda não tomou as ruas e não fez validar essa lei.

O Brasil para e se veste de verde e amarelo em Copa do Mundo, para assistir aos debates políticos e as eleições que vem por ai. Cada gol uma emoção, cada voto, um suspiro de vitória ou de derrota. E quantos estão de preto por uma sociedade que não sabe se unir para reinvindicar. Cadê os famosos caras pintadas que mudaram o país? Esses são pais, hoje, são jovens, adultos, idosos, homens e mulheres que não sabem lutar apenas pelo direito a liberdade?

Não estou pedindo comparações. E nem vou fazer apelações como “Poderia ser o seu filho”, até porque, não foi. Foi o filho de uma família que ficou marcada pelo preconceito. E quantas outras já perderam entes queridos e já sofreram e sofrem e vão sofrer com a homofobia ou a intolerância. A sociedade acredita que é bonito ver chacinas, mortes, violências? Sempre ouvi em minha casa, a maior lei, que talvez eu possa conhecer. Não deseje aos outros algo que não quer para si.

Eu desejo respeito e liberdade de expressão e ir e vir a toda a sociedade. Espero que um dia possa dizer que todos teremos esse direito, que já devia ser garantido há muito. Mas, ainda lutamos, ainda vivemos com medo dentro de nossas janelas com grades, com medo de percorrer às ruas que pagamos para serem asfaltadas, iluminadas e protegidas e ainda temos medo de amar as pessoas.

E ressalto algo que não pode ser esquecido nunca. A intolerância mata. Mas, enquanto a sociedade não agir como um grupo de pessoas diferentes com direito de serem diferentes, é essa sociedade que puxa o gatilho.

Rafael Ferrareze

Formando em Serviço Social, pesquisador em Direitos Humanos e membro-fundador do GADIH – Grupo Acadêmico de Discussões Interdisciplinares Homo-culturais

e Samilo Takara

Formando em Jornalismo, pesquisador em Representação do gênero na Mídia e membro-fundador do GADIH.

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